FASCÍCULO0301 DE SET. DE 2026

Branca!

Meus caminhos eu mesmo traço, escrevo, canto...
ACERVOLIVRE
Mauricio Brancalion — Garopaba, SC
Contos & Crônicas

O Boato - Fake news à moda antiga

1950 (ou perto disso)

O poder de uma fake news vem de longe — bem antes de ganhar esse nome, quando ainda era só um boato soprado de balcão em balcão. Essa é a história de como uma alameda que perdeu seu nome por causa de um homem entediado atrás do balcão de um boteco, numa rua vizinha.

Moema, no começo dos anos 50, ainda cheirava a chácara. As ruas novas estavam sendo batizadas naquele exato momento — pássaros de um lado, povos indígenas do outro, um capricho de urbanista que ninguém questionou. Na recém-nomeada Alameda dos Tupiniquins, Seu Anacleto tinha uma venda de secos e molhados, com balcão de bar aos fins de tarde. O movimento nunca foi muito. Sobrava tempo. E Anacleto enchia esse tempo lendo tudo o que passava pela sua frente — jornal atrasado, fascículo de história vendido de porta em porta, enciclopédia comprada a prestação.

Foi num desses fascículos que ele leu, pela primeira vez, sobre a rivalidade entre tupiniquins e tupinambás — e sobre o relato, devidamente sensacionalista, de um náufrago europeu que jurava ter escapado por pouco de virar jantar de guerreiros tupinambás lá no litoral do século 16. No meio da leitura, atrás do balcão, ergueu os olhos e bateu de frente com a própria placa da rua, do lado de fora: Alameda dos Tupiniquins. Não precisou de mais nada. Ali, na hora, Anacleto se autointitulou tupiniquim — não por sangue, não por ascendência, só porque o armazém dele ficava naquele endereço.

Dias depois, atravessando a pé a Avenida Indianópolis a caminho do atacadista, avistou do outro lado a placa da alameda vizinha: Alameda dos Tupinambás. A associação foi imediata e nada racional — ali estava, materializado numa plaquinha esmaltada de poste, o povo inimigo, o rival. Não os tupinambás de verdade, claro, que ele nunca tinha visto na vida, mas os moradores daquela rua, que a partir daquele dia passaram a carregar, aos olhos dele, uma culpa histórica de quinhentos anos.

A partir dali, Anacleto passou a discursar todo santo dia sobre o assunto — uma prosopopeia digna de cavaleiro andante, tratando duas ruas de asfalto como se fossem exércitos em campanha. Qualquer transeunte reconheceria ali um lunático inofensivo. Qualquer transeunte, menos Belarmino.

Belarmino era frequentador assíduo do balcão do Anacleto, era assessor de gabinete da prefeitura e do tipo que concorda com quem estiver falando mais alto no momento. E no bar de Anacleto, quem falava mais alto era sempre Anacleto, alternando indignação histórica com comentários soltos sobre "como rua sem nome forte empobrece o comércio". Belarmino ouviu a mesma conversa tantas vezes, noite após noite, que ela deixou de parecer opinião de bêbado e passou a soar, na cabeça dele, como uma ideia própria — e, melhor ainda, uma ideia prática.

Belarmino tinha o hábito de aparecer ali todo fim de tarde, pedir uma cachaça e ficar. Não por apreço a Anacleto, nem por gostar de venda de secos e molhados — mas porque, àquela hora do dia, era o único lugar da região onde alguém prestava atenção nele. Ouviu a mesma queixa tantas vezes, copo após copo, noite após noite, que ela deixou de soar como delírio de bêbado e passou a soar como oportunidade. Belarmino queria notoriedade — um feito, um nome, alguma coisa que chamasse atenção lá na prefeitura, onde ele era só mais um assessor entre dezenas. E ali estava, pronta, já moída, já repetida hora após hora: bastava dar ouvidos a Anacleto e tomar a história pra si.

Foi assim que a queixa de um homem entediado chegou ao gabinete de um político que jamais tinha ouvido falar de Anacleto e jamais pisaria naquele bar. Belarmino apresentou a coisa como iniciativa sua: uma solução elegante pra "uma pendência antiga do bairro".

Foi num sábado de manhã, com povo reunido, fotógrafos e microfone da rádio nacional, que o prefeito tomou a ideia definitivamente pra si. Diante da plaquinha nova, ainda coberta por um pano, discursou sobre a grandeza do planalto paulista da Piratininga e sobre como, ali, jamais os tupinambás teriam alameda — como se tivesse descoberto sozinho, na véspera, uma injustiça histórica que ele mesmo nunca soube que existia. Puxou o pano. E foi assim que a Alameda dos Tupinambás deu lugar à Alameda dos Indígenas — nome genérico, sem povo, sem dono, mas com direito a discurso, fita e microfone.

Belarmino, que passara meses cultivando aquela ideia copo a copo, nem sequer apareceu numa foto do evento. Não levou a notoriedade que sonhava, nem o nome estampado em jornal nenhum — só a certeza íntima, e inútil, de que a ideia tinha sido dele primeiro.

Anacleto, que não gostava de político nenhum nem de agitação, nem apareceu por lá. Mas isso nunca importou muito pra ele. Dali em diante, toda vez que atravessava a Avenida Indianópolis e passava pela placa nova — Alameda dos Indígenas —, erguia as duas mãos, discretamente, num gesto de vitória que só ele entendia.

E foi assim que a maior injustiça com um povo indígena foi lavrada — e ajudou a manter, viva e renovada, uma rivalidade eterna entre tupiniquins e tupinambás.

Nota do cronista: tupiniquins e tupinambás não eram, tecnicamente, "tribos rivais" — eram dois entre vários povos de língua tupi que ocupavam o litoral brasileiro, e a inimizade entre eles foi, em boa parte, fabricada e aprofundada pelas alianças que cada lado fez com europeus em guerra entre si. Setenta anos depois de perder essa guerra, uma das duas ruas perdeu também o nome — não pra um exército, nem exatamente pra um político, mas para um bêbado entediado e um puxa-saco que levou o assunto a sério demais. A rivalidade de Moema é, historicamente falando, mais fiel ao original do que parece.

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Mauricio Brancalion é artista multimídia. Essa newsletter é uma produção mensal com seu conteúdo criativo. Feito com Inteligência Natural (IN) pode e deve conter erros.

mauricio.brancalion@gmail.com