Surfe

Era tudo multiplicado por dois, o cidadão ia pro trabalho comprava dois unitários pra ir, dois pra voltar, no bar embaixo da redação pedia um café grande, que são dois pequenos, sentado em sua mesa dois jornais do dia, um ele lia de frente pra trás e ou outro de trás pra frente, na reunião de pauta usava duas cadeiras, sempre. Na hora do almoço se era dia ou não, dobradinha. Tomava nota em dois blocos de bolso e assim mantinha duas colunas no jornal. Tinha aversão a sexta-feira 26, que era duas vezes a temível e popular data, no futebol torcia duas vezes pro mesmo time o principal e o juniores, na loteca uma vez ganhou um prêmio bônus, duas vezes o valor principal. Bienal era seu programa predileto.
Comemorava duas vezes seu aniversário um dia a data correta no outro a data do registro, achava o maior sentido que a votação tivesse primeiro e segundo turno. Comprou dois apartamentos um de frente pro outro. Casou duas vezes e nos dois casamentos manteve duas amantes, tinha duas dúzias de par de meia e duas cuecas de cada cor. Fim do expediente no bar de sempre um duplo uísque ou um martini com duas azeitonas, nunca uma ou três, causava o maior alvoroço pois quando jogava sinuca, contava os pontos em dobro, dois tapinhas nas costas se despedia dos amigos e ia pro curso de Dublê que fazia duas vezes por semana.
Em casa dois ovos estalados acompanhados de duas cervejas de marcas diferentes, era a janta. Tinha dois livros de cabeceira, vários CDs duplicados um para ouvir na sala outro no quarto. Dormia sempre as duas da manhã. E assim duas décadas se passaram que somando davam 40 anos de vida de qualquer outro réles mortal, homenageado pela segunda vez pelo lançamento da compilação de sua crónicas diárias teve a chance em auditório lotado a dois microfones solenemente repousados ao púlpito, alguns minutos de total atenção ao seu discurso de agradecimento, como convém o momento, tirou dois papéis um de cada bolso do paletó se atrapalhou com os dois óculos no peito um pra longe e outro pra perto, olhou para os dois lados da platéia, acenou duas vezes com a cabeça e lembrou a todos com serenidade na voz: Obrigado, a vida, é uma só!
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Diálogos em tempos de IA
Acesse meu canal YouTubeMauricio Brancalion é artista multimídia. Essa newsletter é uma produção mensal com seu conteúdo criativo. Feito com Inteligência Natural (IN) pode e deve conter erros.
mauricio.brancalion@gmail.com